2026-01-27

Recorrência


E passamos o dia num duelo épico com o rolo de papel higiénico (já não há lenços de papel!), tentando respirar por uma narina que decidiu fazer greve de zelo. É o ciclo sem fim: um espirro dramático, a busca frenética por um lençol (ou a manga da camisola, sejamos honestos) e a promessa de que nunca mais tomaremos a respiração livre como garantida. No fundo, ter gripe é viver num aquário, mas sem a parte relaxante de ser um peixe.

2026-01-26

Apre!


O fim de semana devia levar multa por excesso de velocidade. Passa por nós a 200 à hora, sem cinto, sem piscas, e ainda tem o descaramento de buzinar ao ir embora. Quando damos por ela, já estamos a olhar para o calendário como quem encara um polícia de trânsito: incrédulos, ofendidos e claramente em negação.

Depois vem a segunda-feira de invernia, esse conceito abstrato inventado para testar a resistência da alma. Chove de lado, o céu está num tom de cinzento administrativo e o despertador toca como se tivesse algo pessoal contra nós. O café não ajuda, a roupa está fria e a semana começa com aquele entusiasmo de uma fila nas finanças.

Há injustiças no mundo mais debatidas, é verdade. Mas poucas tão constantes como esta: dois dias que fogem e cinco que se arrastam, especialmente quando a segunda-feira vem molhada, mal-humorada e convencida de que tem razão.

2026-01-20

Branco


Chegou o novo anexo da Casa Branca: eficiente, sustentável e com isolamento térmico de fazer inveja à classe média americana. Afinal, quando o mundo aquece, há sempre quem prefira mudar-se para o gelo — desde que dê para pôr o nome na fachada. O problema não foi o frio, foi a surpresa: venderam-lhe a Gronelândia como jardim e afinal é um congelador. Mas não faz mal. Onde antes havia diplomacia, agora há um iglu. Branco, claro. Como convém.

2026-01-18

Eleições


Em Portugal, a eleição presidencial é o nosso desporto nacional de autoajuda coletiva. Não se elege um gestor ou um legislador; procura-se, com uma carência quase infantil, alguém que nos saiba ouvir as queixas enquanto o país continua a ser gerido algures entre o Terreiro do Paço e Bruxelas.

O Presidente, no fundo, é o nosso moderador de luxo. Alguém que pagamos para ler as entrelinhas dos decretos e para, ocasionalmente, mandar um "puxão de orelhas" ao Governo num discurso de 10 de Junho que ninguém ouvirá até ao fim. É o guardião de um templo onde as colunas já estalaram há décadas, mas que mantemos pintado de fresco para as visitas oficiais.

​Quando a contagem termina, o país suspira de alívio. Cumprimos a nossa quota de democracia. Amanhã, voltamos à rotina de sempre: o SNS em coma, a habitação a preço de ouro e a esperança de que o novo inquilino de Belém tenha, pelo menos, a decência de usar o seu poder de veto para nos poupar ao ridículo mais óbvio. Afinal, em Portugal, o Presidente não resolve os problemas; ele apenas os narra com a solenidade necessária para que pareçam inevitáveis.

Depois... depois esperamos por fevereiro, para repetir a via sacra.

2026-01-17

Refletindo


Ah, o púlpito vazio! Que imagem mais poética para representar o vazio intelectual que nos brindou durante semanas. Hoje é o sagrado "dia de reflexão" - 24 horas em que os portugueses devem meditar profundamente sobre qual dos salvadores da pátria merece o seu voto. Como se alguém fosse mudar de ideias depois de meses a engolir propaganda como quem come tremoços.

Os microfones aguardam, solitários, descansando finalmente de amplificar banalidades, promessas recauchutadas desde Afonso Henriques e acusações trocadas com a subtileza de peixeiras na Ribeira. A bandeira observa, coitada, já vista tanta coisa que nem se espanta.

Mas fiquem tranquilos: hoje refletimos (ou vamos ao shopping, dá no mesmo), amanhã assinalamos a cruzinha no papel como bons democratas e segunda-feira acordamos no mesmo país de sempre. Porque em Portugal não há milagres - há é folclore eleitoral a cada cinco anos.

2026-01-16

Economia de Subsistência


​Hoje, o dia amanheceu em regime de serviços mínimos. Não há greve, mas falta o combustível da intenção. Movimento-me por coreografias gastas: o café que arrefece na chávena, o olhar fixo num ponto qualquer da parede, o cumprimento protocolar a quem passa. Existe uma harmonia cinzenta em fazer apenas o estritamente necessário para não levantar suspeitas de ausência.

​Evito grandes pensamentos, como quem evita degraus altos com os joelhos cansados. A alma está em manutenção, ou talvez apenas a poupar energia para uma estação que nunca chega. Não é tristeza, é um deserto plano onde o vento não sopra. Sobrevivo à rotina com a precisão de um relógio que ninguém consulta, esperando que o tempo passe sem me pedir contas, nem explicações, nem entusiasmo. Amanhã, talvez, eu regresse ao mundo. Hoje, apenas ocupo o meu lugar.

2026-01-15

Io, Epona!


Talvez um "Io, Epona!" fosse capaz de ir melhor com a época do que os aleluias convencionais. Estamos naquele momento do ano em que a deusa mãe, sempre tão esquecida, merecia ser lembrada. Agora que os dias já crescem, depois do Inverno que nos afundou em escuridão e frio, é tempo de invocar aquela que nos traz de volta a fertilidade, a vida, os tempos férteis que irão voltar.

Epona, a deusa celta dos cavalos e da fertilidade, devia ter lugar de honra nestes dias. Afinal, é ela quem cavalga o ciclo das estações, quem nos traz a promessa de que a terra voltará a dar fruto, de que há vida depois do gelo. Mas não. Preferimos os aleluias, essas exclamações que já não dizem nada a ninguém, que se repetem por hábito mais do que por convicção.

Um "Io, Epona!" seria mais honesto. Mais pagão, certamente. Mais conectado com aquilo que realmente se celebra nesta altura do ano: o renascer, a luz que volta, a terra que desperta. Seria celebrar a força da natureza em vez de apenas repetir fórmulas gastas.

Mas pronto, continuaremos com os aleluias. É mais fácil. Menos incómodo. E Epona continuará esquecida, galopando sozinha pelos campos da memória colectiva, enquanto fingimos que não sentimos o pulsar da terra debaixo dos nossos pés.

2026-01-14

Bigodes


A moda é cíclica, já sabemos. E agora temos ressuscitado o bigode, ainda que muitos sejam  só amostra com a mania. É que eu, quando penso num bigode digno do seu nome, com panache e brutalmente patriota, penso no Artur Jorge. Não me serve outro. Não me serve qualquer amostra. E fico a pensar... será que a seguir vamos voltar a ter o "cabelinho à Paulo Bento"?